Chef-à-Porter

Entradas do Fevereiro 2009

Canteiro de Ervas

Fevereiro,25 , 2009 · Deixe um comentário

Uma coisa que sempre tive em casa desde pequeno é um canteiro de ervas.

Tá certo que agora não tenho um, mas morar em um pequeno apartamento no centro de São Paulo não é nenhuma desculpa aceitável, já que muitos cozinheiros-amigos que tenho e que vivem da mesma forma fazem seu canteiro de ervas a beira da janela, dando um ar leve a que vê e um perfume pelo apartamento que me lembra a infância.

O canteiro de ervas que vou retratar aqui não é meu e sim de meu pai, que sendo um cozinheiro diário planta suas ervas exatamente ao lado da cozinha. Também mantém uma relação de afeto e ciúmes um pouco estranha com o pé de manjericão, sendo que só ele pode remexer ou podar a tal moita aromática.

Pois muito bem, a idéia é a seguinte: Tendo você um quintal ensolarado, uma laje ou mesmo uma beira de janela, vou sugerir quais ervas acho indispensável ter, além de como cuidar delas. E cuidado com o velho ditado italiano que diz que quem planta alecrim e esse não nasce e cresce, tem o coração ruim.

 

Alecrim – Originário da região do mediterrâneo, o alecrim pode ser usado principalmente em assados com cordeiro, vitela, carne de porco e frango. Possuí um aroma doce e leve, sendo usado também em sobremesas ou salpicada sobre o fogo quando se prepara um churrasco. Não possui muita regra para ser plantada, pois se fixa com extrema facilidade e rapidez. É necessário molha-lo um dia sim e no outro não, devendo ficar metade do dia na sombra e a outra metade na luz do sol.

 

Manjericão – Nativo da Índia, o manjericão é uma erva de folhas verdes, pequenas e macias. Tem um uso bastante vasto, podendo ser usado em saladas, sanduíches, frango (esse muito bom com um pesto bem forte) e claro no molho de tomate, um de seus usos mais clássicos que resultam em uma combinação mais que perfeita junto ao macarrão. Deve ser plantado em uma área ensolarada, mas não suporta frio, geadas ou calor excessivo. Também deve ser regado diariamente e suas flores e pequenos botões precisam ser podados diariamente, já que tais enfraquecem o seu crescimento e leva o pé de manjericão a morte.

 

Sálvia – Também de origem mediterrânea, pode ser encontrada desde a costa sul da Espanha, passando pelos litorais franceses e italianos. Tem um uso um pouco restrito, já que preparações que levam a sálvia não tem espaço para mais nenhuma erva, devido ao seu sabor forte. Vai muito bem com carne de porco, carnes de caça em geral e massas. Como o alecrim não possui muita regra para ser plantada, pois se fixa com extrema facilidade e rapidez.. É necessário molha-lo um dia sim e no outro não, devendo ficar metade do dia na sombra e a outra metade na luz do sol.

 

Tomilho – Pode ser encontrado desde o oeste da Europa, até o sudeste da Itália. Tem um uso também um pouco restrito como a sálvia já que seu sabor é um pouco forte, mas acompanha muito bem assados de cordeiro, frango, porco, além de cozidos e molhos em geral a base de carne. É uma erva que precisa de muitos poucos cuidados, preferencialmente plantada de terrenos secos, sendo resistente ao sol intenso e a falta de água, já que seu excesso causa à queima das folhas inferiores e consequentemente a morte da planta. 

 

Estragão – Ela é encontrada naturalmente em vastas áreas do Hemisfério Norte: Do leste da Europa ao centro e ao leste da Ásia até o oeste da América do Norte, e espalhada tão ao sul quando o norte da Índia e do México. Acredita-se porém que a presença do estragão na América do Norte tenha resultado de sua introdução pelas grandes migrações pré-históricas de pessoas a partir da Ásia. Tem seu uso principal na culinária francesa no famoso molho bernése, mas também sendo muito bem usada em peixes delicados como o linguado e em carnes de mesma característica como a vítela ou rãs. Seu cultivo é relativamente fácil, sendo necessário molha-lo um dia sim e no outro não, devendo ficar metade do dia na sombra e a outra metade na luz do sol.

 

Orégano – Originária também da região mediterrânea, é uma erva incrível quando consumida fresca. Se você nunca a consumiu nesse estado, eu aconselho que você o faça. Possui quase que as mesmas características do manjericão só que menor, mais suave e com uma coloração de verde mais opaca. Muito aromática e saborosa, tem seu uso em assados de carne de porco e caça, além de saladas e sanduíches. Como a maioria das ervas mediterrâneas, seu cultivo é relativamente fácil, sendo necessário molha-lo um dia sim e no outro não, devendo ficar metade do dia na sombra e a outra metade na luz do sol.

Canteiro de Ervas

 

 

 

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Ragú de Paleta de Cordeiro II

Fevereiro,17 , 2009 · Deixe um comentário

Antes de começar o fim da receita mostrada no último post, vou adiantar que a riqueza de imagens aqui não será o forte. As caipirinhas que foram necessárias para que essa odisséia acontecesse foram às culpadas por não nos deixar lembrar de tirar as fotos necessárias de 2/3 da receita, sendo somente a parte do meio da receita retratada com imagens. Peço desculpas a vocês, eu sei, isso é coisa que não se faz, mas tenho certeza que com as explicações e grandes doses de imaginação a receita poderá ser feita e servida sem maiores problemas.

 

Ragú de Paleta de Cordeiro (o ragú em si)

 

- Uma garrafa de vinho tinto (novamente, não precisa ser extraordinário, mas nenhuma tosqueira)

- 15 cebolas cortadas em fatias finas

- 50 gr de manteiga

- 200 gr de tomates sem pele e sementes cortados em cubos

- Sálvia picada a gosto

- Sal a gosto

- Pimenta-do-reino moída na hora a gosto

 

Então tá…Depois que a paleta ficou descansando por duas horas, comece a retirar toda a carne dela. Vale tudo: usar uma faca grande, uma faca pequena, as mãos. Como você preferir, mas tenha certeza que nenhum naco de carne fique na peça.

Salve toda a carne e reserve. O osso deve ser dado a algum cão.

Chega então à parte do sabor. Pegue todas as cebolas e cenouras que serviram de cama para a paleta e que ficaram cozidas e cheias de sabor e as triture em um liquidificador, juntamente com todos os sucos que estão no fundo da assadeira. Isso vai resultar em um caldo grosso e escuro, com um cheiro de defumado e um gosto que assado que não dá pra acreditar. Coe toda a mistura e reserve.

 

Tirando o que dá o gosto

 

Gosto em si

 

Calma ta acabando! Em uma panela grande comece derretendo a manteiga e colocando todas as cebolas para caramelizar. Tal processo demora um pouco então, mas uma vez, tenha paciência. Vá mexendo as cebolas de vez quando em fogo baixo, até que comecem a murchar e então a adquirir uma cor marrom escura.

 

Cebola caramelizada

 

Quando chegarem a esse ponto, junte então toda a carne retirada da paleta do cordeiro, os sucos do seu cozimento e a garrafa de vinho tinto. Você vai ver que o conteúdo vai ser maior que o volume de carne, mas isso tem um propósito: enquanto todo o líquido é reduzido a um xarope de carne, esse mesmo líquido cozinha ainda mais a carne, garantindo que ela derreta na boca.

Quando o molho estiver grosso e a carne quase começando a se desfazer, está como deve ser. Desligue o fogo e finalize com a sálvia picada e os cubos de tomates frescos.

 

Pronto.

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Ragú de Paleta de Cordeiro I

Fevereiro,12 , 2009 · Deixe um comentário

Depois de esmiuçar o forno de pedra em todos os seus detalhes e usos, nada melhor do que colocar uma receita de assado feito nele. Confesso que deu um certo trabalho mas nada como uma boa companhia pra fazer com que as etapas se transformem em conversas, reflexões e risadas sobre comida. A pessoa em questão é meu pai, que além de muitos e muitos palpites, tem o crédito das fotos e de preparar todas as caipirinhas que foram necessárias para se fazer à receita sem pressa e calor.

A execução da receita demora um dia inteiro pra se realizar já que o cozimento deve ser feito lentamente no forno a pedra. Assim, vou dividir a receita em dois posts, um para a execução e outro para a finalização da receita.

 

Ragú de Paleta de Cordeiro (para assar)

 

- Uma paleta de cordeiro de aproximadamente 5 Kg

- 3 cebolas grandes cortadas grosseiramente

- 3 Cenouras grandes cortadas grosseiramente

- Sal a gosto

- Pimenta-do-reino moída na hora a gosto

- Uma garrafa de vinho tinto (não precisa ser muito boa, mas também nenhuma tosqueira, por favor)

- Alecrim fresco a gosto

- Tomilho fresco a gosto

 

Modo de Preparo:

 

Em uma assadeira grande espalhe as cebolas e as cenouras. O papel dos vegetais na receita e puramente aromático e prático, por eles vão evitar que a carne entre em contato com o fundo da assadeira e grude, além de servir com pequenas esponjas de sabor. Tempere a paleta então com sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto e a coloque sobre a cama de cebolas e cenouras.

Agora o truque: Antes de usar o alecrim e o tomilho, esfregue as ervas segurando-as pelo cabo e correndo a mão sobre elas no sentindo contrário. Esse movimento ativa os seus óleos essências e garante um sabor mais forte e pronunciado a paleta.

 

Soltando o alecrim

 

Soltando o tomilho

 

Faça pequenos orifícios da paleta e introduza as ervas. Eu sei que parece um pecado furar um pedaço de carne tão bonito, mas tudo bem, pois ela vai ser desfiada para se fazer o ragú.

Após todo o processo abra a garrafa de vinho e despeje sobre a vitela, fazendo que cada pedaço fique regado por ele. Cubra a assadeira com papel alumínio e leve ao forno.

Agora é o momento das caipirinhas e de ter muita, mas muita, mas muita paciência.

Com o forno bem baixo asse a paleta, regando-a de vez em quando com o vinho e os sucos que se acumular no fundo da assadeira. Não existe uma temperatura certa para o forno, mas ele tem que estar baixo, de modo que você consiga colocar seus braços dentro dele sem se queimar. O tempo de cozimento também varia muito, pois os fornos de pedra são diferentes entre sí. No meu caso o cozimento demorou cerca de 6 horas.

Para saber se a paleta está no ponto, faça um pequeno corte próximo ao osso e observe se a carne está em um tom levemente rosado. Estando assim, retire-a do forno e deixe descansar por 2 horas.

 

Como será que vai ficar?

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Forno de Pedra

Fevereiro,9 , 2009 · 4 Comentários

Bom, antes de ensinar como se assar qualquer coisa em um forno de pedra, uma dica boa é ensinar como se usar um. A técnica que vou descrever por aqui não é nada do outro mundo, sendo bastante similar como se acender uma churrasqueira.

Comece limpando todo o forno por dentro e garantindo que ele esteja completamente vazio, sem restos de madeira ou fuligem. Coloque então a madeira que você preferir junto as paredes do forno, seguindo o contorno natural do interior e deixando o seu centro livre. Não coloque muita madeira, pois isso atrapalha o fluxo de oxigênio dentro dele e consequentemente, o início e evolução do fogo. Lembre-se que você vai colocar coisas dentro dele e que isso não vai acontecer se uma árvore estiver lá dentro.

Terminando de arrumar a madeira, coloque diversos jornais entre elas.

Faça isso em três ou quatro pontos do forno onde as madeiras estejam mais finas e secas, pois assim o fogo se inicia com mais felicidade. Dessa forma a temperatura se eleva com mais velocidade no interior do forno, o que garante que as madeiras que estejam lá sequem mais rapidamente e assim, peguem fogo mais rápido e melhor.

Com tudo pronto chega a melhor hora: fazer a coisa toda pegar fogo. Acenda os jornais ao mesmo tempo e espere que as pequenas ripas peguem fogo. Quando você reparar que elas estão queimando, comece a abanar oxigênio pra dentro do forno, o que vai garantir que o fogo queime tudo que esteja lá dentro por igual e rapidamente. Essa atividade requer algum tempo e paciência: talvez seja necessário cutucar um pouco as madeiras lá dentro com a ajuda de um pedaço de ferro ou até mesmo repetir o processo caso o fogo não acenda de primeira (sim! essa possibilidade existe!). Por isso, tenha calma. Sugiro que você não marque nada nesse dia e que compre umas cervejas para o desenrolar do processo.

Se tudo der certo, como eu sei que vai dar, o resultado é uma filiar do inferno, como o da foto a baixo.

 

Forno aceso

 

Com o fogo rolando lá dentro uma outra coisa bem importante é saber com manter o forno sempre aceso, claro, porque você não vai querer enfiar os braços lá dentro quando a temperatura estiver beirando os 300 graus.

O que vale observar é o seguinte: injetando oxigênio o fogo queima mais rápido, a temperatura se eleva muito e o que você tem e um perfeito forno de pizza para se pré-assar massas ou mesmo uma pizza com recheio em 3 minutos ou dar aquela cobertura dourada e crocante em assados em geral.

Já abafando o forno você tem o forno mais perfeito para se assar que existe. A fumaça e o calor ficam todos contidos lá dentro cozinhando e defumando lentamente aquela paleta de cordeira ou pernil e você raramente tem que se preocupar em alimentar o fogo no meio do processo.

Para se conseguir as duas situações você vai ter que controlar a entrada de oxigênio pela parte superior do forno, que normalmente é uma alavanca que tem o mesmo princípio de uma torneira: Quando a alavanca está na vertical a entrada de oxigênio está aberta e o forno fica com as características da primeira situação que descrevi.

 

Injetando oxigênio

 

Já com a alavanca na horizontal a entrada de oxigênio está fechada e o forno se torna uma câmara das delícias onde o cozimento e a defumação acontece por horas a fio, lentamente, como deve ser.

 

Abafando e defumando

 

Uma coisa que sempre faço e que acho o ideal é manter um meio termo entre essas duas posições: deixo a alavanca levemente aberta para uma entrada mínima de oxigênio e garantir que o fogo não se apague, mas também para concentrar todo o calor e fumaça lá dentro, garantindo um cozimento lento e uma defumação por igual.

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