E começou!
Vou conferir nessa semana, o Semana Mesa SP, o evento da revista Prazeres da Mesa que reúne no Brasil o que acontece de mais interessante, legal e bacanudo no mundo das panelas. O evento, que acontece no campus universitário do Senac Santo Amaro, começou agora dia 26 de Outubro e vai até o dia 30. São duas programações que juntas formam a semana:
O Mesa Tendências que nesse ano tem o tema cozinha evolutiva: das raízes a tecnologia, aonde ingredientes básicos e simples são reinterpretados e apresentados de outra forma, mostrando assim novas texturas, cores, aromas e sabores. As apresentações funcionam como um seminário, onde os chefs preparam pratos que dialoguem com o tema, suas impressões sobre ele e respondem perguntas do público.
Já o Prazeres da Mesa Ao Vivo é composto por aulas com chefs renomados do Brasil e do mundo, que demonstram o preparo de alguns pratos de seus restaurantes, mas de uma maneira mais minuciosa, pausada. As aulas são também uma boa chance de conversas diretamente com os mestres que mais se destacam, além de poder degustar no final da aula o que foi preparado.
Entre toda a programação de ontem, fui ver dois cozinheiros que sou fã, adoro, bato palma e digo amém: Carlo Cracco, do restaurante Cracco em Milão na Itália e do nosso já conhecido Claude Troisgros, do restaurante Olympe, no Rio de Janeiro.
Cracco, um dos chefs mais comentados no país da bota, apareceu para a palestra com um dois ingredientes básicos e deliciosos: Azeite e ovos.
Prezando por uma apresentação minimalista, moderna e com muita criatividade, mas sem deixar de lado a cozinha clássica italiana que é cheia de vida, com ingredientes frescos e potentes, Cracco propôs interessantes obras, como um azeite que é congelado junto com manteiga de cacau, revelando assim outra textura, mas mantendo todas as características do azeite cru. Quando esse bloquinho de azeite congelado é ralado na frente do cliente, se formam pequenos flocos que derretem lentamente em contato com a massa quente, revelando todo o perfume e sabor do azeite.
Outra coisa que apareceu por lá e foi demais foram os ovos marinados. Funciona da seguinte forma: pegue a gema de um ovo, salpique com quantidades iguais de sal e açúcar e a coloque para descansar por 12 horas sobre um purê de feijão, sendo que esse só tem a função de manter a forma da gema, nada mais. Depois desse tempo, a gema se desidrata e mantêm a mesma textura, seja por dentro ou por fora. As gemas são acompanhadas no prato por um creme muito delicado de parmesão, que é obtido se derretendo o queijo lentamente para que a gordura se separe da massa de leite, sendo só a massa aproveitada na preparação. A gema é disposta sobre o creme e o prato, guarnecido com folhas de claras de ovos, feitas através de uma coagulação lenta das mesmas dentro do forno.
Agora o terceiro prato foi um espetáculo, algo que sei que não agradou aos mais puritanos. Com as gemas que sobravam do serviço, Cracco as reaproveitou compactando todas e fazendo uma massa que parecia plástico, mas não eram nada mais do que ovos desidratados. Com a ajuda de uma maquina de macarrão, folhas finas dessa massa são abertas, que dão origem a um espaguethi laranja de primeira, que é acompanhado de um molho de tomate simples. Um acompanhamento que também achei demais foram às sementes de manjericão – que nunca vi por aqui – que pareciam muito com sagu, algo gelatinoso, mas com uma textura e sabores únicos.
Agora uma curiosidade: Carlo, que entrou na cozinha meio que por susto, queria na verdade ser padre, mas foi convencido –graças a deus – por seus pais a fazer outra coisa da vida.

Carlo Cracco
Agora, fugindo de todas as regras e com aquele jeito todo carioca-francês que acho legal demais, Claude Troisgros roubou a cena. Mostrou vídeo de seus restaurantes, de quem compra frutas, verduras e peixes, os profissionais que trabalham com ele, sua família e o restaurante da sua família, o três estrelas guia Michelin Maison Troisgros, em Roanne, na França. Claude preparou durante a apresentação um prato bastante simples, mas que tinha sua beleza justamente aí.
Tudo começou com um gaspacho espanhol tradicional, mas sem pão ou azeite, para que ficasse bem leve. Todos os ingredientes foram picados de uma maneira grosseira e colocados para marinar durante algumas horas. Em seguida foram processados e reservados para compor o prato como guarnição.
Em seguida um mix de mini vegetais orgânicos foi assado lentamente no forno, somente com sal, pimenta-do-reino moída na hora e azeite, a fim de preservar a cor, a textura e a forma dos mesmos.
Em seguida uma coisa bastante curiosa: com a idéia de preparar uma falsa batata para compor o prato, Claude fez uma massa muito parecida com aquela de tempurá, preparada com farinha de trigo, água gelada, mas que também tinha sal de frutas, que garantiam muitas bolhas e leveza.
E foi isso, nada mais. Mas acredite, ficou lindo de morrer. Os vegetais foram arrumados de uma forma muito simpática no prato – o que lembrava bastante o trabalho do genial Michel Bras – junto com as “batatas” e pequenas folhas de jambú, aquela erva amazônica que adormece a boca quando mastigada. Como pano de fundo, o gaspacho foi disposto a tingir de vermelho todo o fundo do prato.
No final foi aquela festa. Muita gente aproveitando a simpatia do Claude pra perguntar, trocas experiências e dar risadas.

E as aulas continuam…estou ancioso pra conferir o esperado Jordi Roca e suas invencionices do El Celler de Can Roca
E vamos em frente!























