Eu nunca tinha ido ao Mocotó.
Talvez você fique estarrecido em ouvir mas é verdade meus caros, nunca tinha colocado os pés na casa comandada por Rodrigo Oliveira pra ver e principalmente provar a melhor comida nordestina de São Paulo, como andam dizendo por aí. Nesse último final de semana, porém, a história mudou. Além de dar o ar da graça na Vila Medeiros – uma quebrada deliciosa que lembra onde cresci – participei do primeiro encontro dos blogueiros mais comilões da cidade.
Logo que cheguei deu pra ver que o lugar era concorrido e seguindo o raciocínio, a comida boa. Um mar de gente de espremia, acotovelava e retorcia na frente do lugar esperando por uma mesa ou só mesmo tomando cerveja e aproveitando os beliscos que ficavam expostos na frente da boqueta da cozinha.
Perguntamos pela mesa eu, Lara Januário e Julia Reis. Combinamos de formar um bonde para ir até lá com a Julia dirigindo. A sorte foi que ela já tinha ido, por que senão, se perder por aquelas bandas pode ser bem complicado, o que graças a São Lourenço, não aconteceu. Procuramos pela mesa e o garçon nos guiou até os fundos onde o resto do grupo – acho que éramos quase trinta – já aproveitava as caipirinhas, a cerveja de garrafa muito gelada – uma benção – e os quitutes do lugar.
Sentei e pedi um copo pra começar a beber e que ele viesse junto com uma cachaça. Peguei esse costume do namorado de uma amiga, um paraibano que me mostrou que a volúpia – a cachaça perfumadíssima da Paraíba, claro – era algo pra se tomar não em sorvos mas em pequenas bicadas entre uma cerveja e outra.
Como já estava me hidratando, comecei a tratar do estômago. Uma coisa que achei legal do cardápio é a opção de poder pedir porções bem pequenas dos pratos, sendo que dá pra fazer um menu-degustação de culinária nordestina. Comecei por uma coisa que janto às vezes em casa não por que é fácil de fazer, mas sim porque o sabor me faz lembrar a infância e a tem diversas texturas que te acertam como uma pedrada: Ovo cozido. Costumo comer os meus bem molinhos, como os que estavam sugeridos no cardápio, mas ao invés do sal e azeite, esses eram acompanhados de cebolinha, pimenta biquinho e uma paçoca de carne-seca. As texturas se combinavam com maestria, o sabor do ovo era forte e fresco e a pimenta dava o seu recado. Uma entrada caipira-emocional pode se dizer.
Em seguida uma coisa que muita gente tem nojo, asco, torce o nariz mesmo, mas que eu acho uma injustiça. O pobre do sarapatel é um só um cozido com o os miúdos do porco junto com o sangue coagulado do animal. Pra mim os miúdos – da maioria dos animais – são as partes mais saborosas, mas infelizmente ainda sofrem muito preconceito por aqui. Sobre o sangue não tem muito o que falar, é uma coisa forte mesmo mas que se usa a muito tempo desde os primórdios da cozinha clássica francesa. Estava bem bom, com o molho na textura e cor corretas, bastante cebolinha e um sabor forte. Fígado, coração e o bofe do porco estavam muito bem apresentados, cortados em elegantes cubinhos e acompanhados ainda de toicinho. Matei uma cumbuca pequena com um monte de farinha d’agua que me esqueci de perguntar da onde era.
Em seguida pedimos algo maior pra dividirmos e dar aquela forrada principal no estômago. Fomos de escondidinho de carne-seca e mandioca.
Eu vou falar algo que pode chocar, mas eu não achei nada demais. Estava gostoso, claro, mas o purê parecia firme demais e a carne-seca não era rica em cebola, só tinha mesmo um susto dela. Pensei que ia ter mais requeijã, mas foi só aquilo mesmo que veio. A apresentação é que me chamou mais a atenção no prato. Um dourado uniforme do queijo de coalho que formavam uma renda.
O que aconteceu em seguida foi o que me fez sentir mais em casa. Eu já tinha comido bem, bebido mais ainda e carecia de um cochilo. Dei uma saída estratégica pela direita e fui até o carro da Julia me acabar de dormir numa tarde de vento morno e movimento da rua. Uma delícia.
Acordei com a Larissa me ligando e me perguntando se eu não ia querer sobremesa. Como já tinha ouvido falar no sorvete de rapadura com calda de catuaba que tinha por lá, me pus de pé e caminhei de volta pro restaurante. O sorvete era demais, um sabor bastante suave de rapadura e não muito doce, tarefa que era cumprida com sobra pelos pedacinhos de rapadura que apareciam pelo sorvete. A calda tinha o gosto pronunciado da catuabamas a grosseria do álcool foi substituída por uma elegante fundo de cravo da índia. Muito saboroso e aromático ao mesmo tempo, enchia o ar da boca de sabor.
Lembro que não falamos muito depois que saímos, só deixamos o silêncio e o caminho tomar conta das coisas e aproveitamos ao máximo aquela comida que ainda estava dentro da gente cheia de amor e a lembrança de uma tarde deliciosa, falando sobre comida, comendo, bebendo e vivendo.
No final o Rodrigo me aparece com uma garrafa cheia de cachaça e lotada de favas de baunilha. Nomeada de francesinha a bebida era servida gelada e tinha mais uma cara de licor do que qualquer outra coisa. Eu não bebi, mas o resto do povo se esbaldou no digestivo.
Depois era só o final do domingo.





3 respostas Até agora ↓
Lara // dezembro,11 , 2009 às 12:53 pm |
quero esse ovinho…
Tweets that mention Mocotó, a Mesa dos Fundos e um Punhado de Blogueiros « Chef-à-Porter -- Topsy.com // janeiro,22 , 2010 às 5:53 pm |
[...] This post was mentioned on Twitter by Gustavo Rigueiral, Valeria Berriel. Valeria Berriel said: @ChefaPorter que escondidinho hein? http://bit.ly/8Bl2JV [...]
Nanda Holt // março,4 , 2010 às 11:39 pm |
Estou querendo ir conhecer o restaurante faz tempo, mas meu namorado só me enrola e diz que vamos no próximo finde… e esse dia nunca que chega hahaha